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Por que cantamos no dia 18 de maio? - por Juliana do Vale

18 de mai. de 2021
3 min de leitura

Hoje está sendo um dia estranho. Pela segunda vez, estou em casa num 18 de maio. E foi estranho me dar conta, ontem — tão perdida que estava no calendário! — que estávamos em 17 e hoje seria 18. Geralmente, estou em contagem regressiva desde o começo do mês: produção das oficinas, eventos, atos. O calendário vivia cheio. E dia 18 era o ápice da nossa festa, nossa balbúrdia, o dia do grito mais alto. Pensei em escrever; assim nasceu esse texto. Façamos uso das palavras para tentar dar lugar às coisas.




Por que cantamos no dia 18 de maio?

Sempre me faço pensar que as coisas mais importantes ficam marcadas. Lembramos o dia, o lugar, até a hora em que aconteceu, lembramos a roupa que usávamos. No dezoito de maio de 2019, eu usava a camiseta laranja dos cancioneiros do IPUB. Meu cabelo estava preso, pra variar. Eu torcia para não chover mas já chuviscava, e todo mundo buscava abrigo em um toldo instalado no meio da Carioca. Acho que eu estava de chinelos. Esbarrei com uma galera que conheci pela rede. Um pessoal do Centro Acadêmico de Psicologia da UFRJ. Aquele moço que tá sempre com uma camiseta com a foto do Crivella e a frase “pior prefeito” em letras garrafais. Encontrei o Abmael. O Antônio Carlos. A Ana Clara. Quando choveu, a música ainda assim continuou, eu pulava, o Gabriel não sabia dançar e ficou só balançando a cabeça. Eu pulava. Aos berros. Estonteante. Tocava uma música do Loucura Suburbana e eu lembro perfeitamente de olhar ao meu redor e pensar “eu tenho a sorte de viver o melhor trabalho do mundo”. Não era um pensamento novo; sempre vinha em momentos nos quais eu me via envolta de vida e arte. Momentos como aquele. Ali, naquela praça, tinha gente de todo lugar, de todos os cantos do Rio, de todas as idades. Gente que curtia mais quando a música era um samba, gente que gostava da pegada rock, gente que dançava o que viesse. Gente que nem falava, gente que nunca parava de falar. Gente que sempre soube o que era caminhar pela rua, gente que só descobria isso agora e ainda precisava de uma ajudinha. Gentes, misturadas, todo mundo vivendo a cidade como deveria poder viver. E toda essa gente cantava. Em coro, mesmo que o moço no microfone não quisesse passar seu tesouro para mais ninguém. O coro passava para além da chuva, para além do barulho de carro passando em poça: “Ah, eu tô maluco!” E a risada corria solta. Um riso leve, solto, de liberdade. Ao contrário do que ainda dizem, dá pra estar maluco, isso não é argumento para prisão. E a gente sabe disso, é um segredo muito acertado, e é por isso que a gente ri. Coitados daqueles que ainda acham que se precisa curar a maluquice. Quando a risada acalma, as vozes ficam mais altas e soltam a frase que levamos tanto tempo para finalmente proclamar: “Nenhum passo atrás Manicômios nunca mais” E lembramos dos retrocessos diários que nos são impostos, dos cortes orçamentários, das incessantes tentativas de desmonte do SUS, das violências que ainda nos trancafiam. O grito vai ficando mais alto. A intolerância, os discursos de ódio, a marginalização, o genocídio, o fascismo. Mais alto. Respiramos. A chuva aumenta. Já anoiteceu, e muita gente precisa tomar o ônibus logo para conseguir chegar em casa. A despedida é breve para alguns, do convívio diário; é um “até ano que vem” para outros. A saideira acaba de acabar. Mas a música fica na cabeça. E é por isso que cantamos. E cantamos todos os anos por aqueles que foram impedidos de cantar — trancados, dopados, eletrocutados, abandonados, isolados, corpos matáveis deixados para morrer. Cantamos pelos que vieram antes de nós e começaram esse percurso, pouco mais de 30 anos atrás — quebrando os primeiros muros, nos deixaram a responsabilidade de não voltar a erguê-los. Cantamos para lembrar a todo mundo que passa que aquelas vozes — cada uma delas em seu timbre — não vão mais se calar. E ainda lhes fornecemos os microfones, para que se ampliem, para que ocupem os espaços que por tanto tempo lhes foram retirados. É por isso que cantamos no dia 18 de maio — e em todos os dias de todos os meses: por que, enfim, podemos lutar pelo direito de cantar em todos os espaços, em voz alta ou baixa, com rock ou samba no fundo. A luta continua.



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Coletivo voltado à clínica, pesquisa e transmissão na articulação entre psicanálise e saúde mental.

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